A TECNOLOGIA NO MUNDO PÓS PANDEMIA

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Houveram poucos momentos na história humana em que as pessoas realmente tiveram independência de pensamento.

Desde que a humanidade passou a se organizar em comunidades o que ocorreu foi que as pessoas passaram a pensar de forma coletiva, influenciadas pelas prioridades e pelas crenças de quem comandava o grupo.

Essa influência, nos primeiros tempos, era mais direta, ou seja, as pessoas se reuniam em determinado local e o influenciador falava diretamente para o grupo que aceitava e incorporava o que era exposto. No entanto, com o passar dos anos, décadas, séculos, milênios, o grupo cresceu tanto que já não era mais possível ao influenciador falar diretamente para o grupo como um todo, ele, o influenciador, passou a necessitar de meios de intermediação para os comandos que precisa dar aos grupos que, como sempre, continuam a obedecer as regras determinadas sem nem ao menos saber quem realmente criou essas regras.

SE PREFERIR VEJA ABAIXO O VÍDEO GRAVADO COM ESTA REFLEXÃO

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Os intermediadores , ao longo de todo esse tempo, foram sendo aperfeiçoados e acrescentados de acordo com a evolução tecnológica, primeiro eram pessoas no papel de sub-comandantes, posteriormente vieram símbolos em locais de uso coletivo, estes símbolos foram talhados em edificações, em monumentos, incorporados gestualmente em manifestações culturais, contos mitológicos, músicas, escritos, impressos em objetos de uso cotidiano, até que chegamos à era da eletrônica com rádios, televisão, computadores, smartphones e várias outras tecnologias de comunicação.

Todos atualmente se acham incrivelmente evoluídos, inteligentes, por possuírem objetos tão impressionantes quanto um smartphone em seus bolsos, no entanto não percebem que esses objetos são peças fundamentais do trabalho de intermediação das manifestações de crença e culturais cotidianamente massificadas através deles, e servem ao mesmo propósito que serviam aquelas mesmas reuniões de grupo das primeiras comunidades humanas: manter você recebendo a voz de comando à qual você irá obedecer sem nem mesmo se dar conta de que suas crenças e suas ações estão sendo ditadas pelos descendentes daqueles mesmos comandantes que as ditavam nos tempos mais remotos das comunidades humanas.

Houveram poucos momentos históricos em que as pessoas realmente tiveram independência de pensamento. O momento atual não é um deles. Estamos pensando atualmente com total dependência do que é manifestado através da televisão, smartphones e outros meios de comunicação de menor capilaridade no momento.

Você já parou para se questionar o que o seu smartphone está impondo que você faça sem que ao menos você se questione o motivo de estar fazendo isso?

Eu sei que você tem bons exemplos de comportamentos que rapidamente viram moda ao serem propagados através de notícias, novelas, filmes, séries, postagens no instagram, grupos no WhatsApp e tantos outros influenciadores que estão bem aí, chegando como mágica, na palma da sua mão e indo diretamente para o seu cérebro, sem que encontrem resistência.

Esse conjunto de regras sociais e crenças que lhe atingem de forma velada, estão nos últimos tempos perdendo a necessidade de se camuflarem, passando a se mostrar e a se impor de forma bastante explicita através de um organismo eletrônico que julga e sentencia a todos, indiscriminadamente e que recebeu o nome de sistema de crédito social. Ele impõe que todo cidadão seja juiz e réu de regras que acatou por imposição do habitual exemplo coletivo com o qual convive desde o seu nascimento.

O sistema de crédito social causará estranheza e até repúdio aos que nasceram antes de seu advento e que lhe enxergarão como anormal; no entanto, os que nascerem quando este já estiver completamente implementado o considerarão, assim como as regras e crenças que formatam os julgamentos feitos através dele, como um elemento normal e necessário para o equilíbrio social em que viverão.

A modernidade tecnológica na qual você atualmente vive nada mais é que uma maneira mais rápida de homogeneizar as regras e crenças de toda a população para aquelas regras e crenças do grupo milenar que sobrepujou a todos os outros grupos dominantes.

Todo esse complexo conjunto de fatos que não podem ser enxergados de maneira intuitiva, bem como o organismo criado para a sua articulação, são os pilares usados pela série Black Mirror, pilares esses que se minimamente entendidos, desnudam em Black Mirror a realidade cruel do “novo normal” que está sendo descortinado para o mundo pós pandemia.

A crença mitológica existente na utilização do objeto Espelho Negro (Black Mirror), que credita a ele o poder de enviar o seu utilizador ao submundo espiritual, para que conviva com as deidades caídas que lá estão e então retorne, liberto de sua inocência, ao seu mundo normal; foi poeticamente narrada, ao longo da história humana, em parábolas contos, poesias, romances como o onírico Alice no País das Maravilhas que influenciou muitas outras obras, tanto escritas quanto cinematográficas.

Uma das últimas adaptações de Alice no País das Maravilhas, produzida pelos Estúdios Disney e conduzida pelo diretor surrealista Tim Burton em 2010, serviu de inspiração para um dos mais impactantes episódios da série Black Mirror, o primeiro episódio da terceira temporada, que recebeu o nome de Nosedive, Queda Livre, em português.

Em Queda Livre, a personagem principal, Lacie (você consegue escrever o nome Alice com as letras do nome dela) interpreta a inocência primordial da menina Alice, da história originalmente escrita por Lewis Carrol.

Lacie (ou Alice, se preferir) esta integrada no pensamento coletivo, do qual já absorveu as crenças e costumes que, no sistema de crédito eletrônico já implementado no mundo “normal” no qual ela vive, devem ser julgados como positivos por todos aqueles cidadãos considerados normais naquele mundo.

Assim como na adaptação de Tim Burton, a Alice de Black Mirror come o bolo de crescimento e bebe a poção de encolhimento, esta, no início do episódio, a torna pequena diante dos seus grandes objetivos no mundo que se lhe apresenta normal; aquele a torna grande e desajeitada para lidar com o mundo obscuro (a toca do coelho) no qual ela é jogada repentinamente por influência do Black Mirror (seu smartphone e o sistema de crédito social) os quais ela trás consigo de maneira permanente e habitual.

Assim como na vida real, a Alice de Black Mirror interpreta mais de um personagem do filme que inspirou o episódio NoseDive.

Apesar des inúmeras e óbvias referências, em NoseDive de Black Mirror, ao filme Alice no País das Maravilhas, de 2010 (o nome da personagem principal, o cabelo vermelho da rainha “má”, a noite representando o adentrar na “toca do coelho”, a Alice se fere com um objeto cortante, atravessa um pântano para se confrontar com o seu medo e tantas outras); e da grande carga mitológica e espiritual que o romance original, o filme e o episódio carregam; são poucas as pessoas preparadas para perceber essas referências, menos ainda são as que tem a capacidade de entender o que é mostrado nesse mundo de Alice, cativas suas mentes que estão em seus próprios Espelhos Negros, que trazem permanente e habitualmente grudados às suas mãos, acatando regras, absorvendo crenças primitivas milenares, julgando e sendo julgadas.

Houveram poucos momentos na história humana em que às pessoas foi permitida a liberdade de crença e pensamento. O momento atual, definitivamente, não é um deles.