O dia em que não troquei um Gol bola usado por uma casa [Especial de Ano/Década Novo/Nova]

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Por conta dos eventos que se desenhham não só para este novo ano, mas também para esta nova década, faço hoje uma publicação bastante diferenciada aqui no GPS.Pezquiza.com. Quero compartilhar com os amigos um fato que ocorreu comigo lá no início deste milénio/século, e isto não é um click bait: O dia em que não troquei um Gol bola por uma casa.

Faço isto com o intuito de deixar uma reflexão para os amigos que me acompanham a tanto tempo, sei que alguns, face a tudo o que ocorreu no ano que se finda, irão entender de imediato qual é o ponto; outros deverão fcar sem entender de imediato ou até mesmo acharão que é bobeira, afinal, dirão: “a vida tem dessas coisas”.

Sim meus amigos, a vida tem dessas coisas, mas há muitas reflexões/conselhos que passam pela nossa vida e não somos obrigados a entender de imediato. Devemos somente não julgar e guardar as palavras pois o futuro, com certeza, clareia tudo aquilo o que ficou obscuro em nosso passado.

Como eu dizia, era início de milênio, entre os anos 2000/2001. Eu havia, há poucos anos antes, arrumado um emprego na administração do escritório de uma obra de telefonia que estava sendo executada em algumas cidades no interior de São Paulo, próximo à capital. Como parte do pagamento, após algum tempo de serviço, recebi um Gol bola zero Km, aquele com motor 1.0, 16V que ficou tão mal falado na época mas que, para mim, foi excelente e nunca me deixou na mão.

Para voc~e ter uma ideia, em aproximadamente três anos em que fui dono do carro, ele rodou 116 mil Km. Além dos compromissos diários de trabalho que eu tinha , percorrendo obras em várias das cidades em que ela estava sendo executada, a minha família é de Goiânia (onde resido atualmente) e esse carro “riscou” muito o chão entre São Paulo e Goiás.

Foi meu primeiro carro, o carro de um rapaz pobre, que o comprou com 25 anos de idade em um momento em que achava que não conseguia comprar nem um carro usado, quanto mais um novo. Só para contextualizar, pois a parte principal da história vem a seguir, minha família nunca teve condições de me dar nem uma bicicleta usada. Imaginem então como eu estava apegado em tal carro. Fora isso tinha toda aquela questão de um jovem morando sozinho e começando a ter uma certa condição de “aproveitar” a vida.

Mas como nem tudo são flores, vieram problemas para a empresa e fui obrigado a me mudar para Goiânia por imposição de um dos donos que me queira trabalhando no escritório da capital goiana. Fui obrigado a arcar com, alem da despesa de mudar intempestivamente de cidade, a realidade de encarar que eu não poderia “aproveitar” a vida como eu achava que podia pois o saldo bancário não se repunha na velocidade necessária para os gastos que foram necessários naquele ano.

O tal Gol bola começou a pesar, e muito, no orçamento. Mas você sabe como é, eu ainda estava muito apegado ao carro e às necessidades que eu julgava imprescindíveis e necessitavam daquele carro. Mas foi aí que o inusitado aconteceu.

Um dos sócios da empresa em que eu trabalhava, sabendo que eu já estava com dificuldades para manter meu Gol bola e conhecendo uma pessoa que também estava com presa para resolver um problema de vida, me chamou para conversar/aconselhar a fazer uma negociação. Um conhecido dele tinha uma casa em um bairro chamado Jardim Presidente, aqui em Goiânia. Ele precisava se desfazer rapidamente da casa para voltar para a cidade natal dele e um dos negócios que ele aceitava, para isto, era trocar a tal casa num carro.

Na época o tal jardim Presidente era, para mim, um bairro bastante afastado, ainda em formação, que não tinha atrativo nenhum. Ainda mais porque na época eu também pensava em voltar para São Paulo, só não sabia como o faria.

Ora, para falar a verdade eu nem raciocinei que eu também nunca tinha tido uma casa e muito menos que a minha família (mãe, pai, irmã) também não tinham uma casa e moravam de aluguel, com muita dificuldade. O meu objetivo era voltar para São Paulo com o tal carro, que na minha cabeça era o que era imprecindível.

“Casa?!”, pensava eu, “casa não dá a liberdade que o carro dá”. Julgamentos da juventude e da falta de maturidade.

Mas acontece que o meu chefe “sócio da empresa” que havia me falado sobre o negócio insistiu comigo e lá fui eu ver a tal casa e conversar com o dono dela sobre o negócio. Era uma casinha simples mas muito bem construída: quarto, sala, cozinha e banheiro; no fundo do lote, um quintal razoável, bem murada, portão eletrônico com metal de boa qualidade e, para ajudar, a parada do ônibus era na frente da casa.

Apesar de não me cair nada bem a ideia de voltar a ander de ônibus, eu confirmei com o dono da casa se a troca seria mesmo “pau-a-pau” e ele disse que sim. Saí do local com tudo combinado, dali uns dois dias nós iriamos no cartório ver a papelada e fechar o negócio. Já fui embora com o clima de: “pronto, perdi meu carro”; ao invés de pensar que estava ganhando uma casa.

Mas novamente o inesperado aconteceu, no dia do combinado do fechamento do negócio o tal dono da casa me ligou dizendo que tinha pensado melhor e que não iria fazer o negócio pois não fazia muito sentido trocar uma casa em um carro. Num misto de sentimentos conflitantes de raiva e alegria, ainda questionei se ele não tinha palavra para seguir com o trato em frente e ele “firmou o pé” de que o tratado estava desfeito.

Ok, desfeito o trato por vontade do vendedor eu segui com a vida, nem pensei mais no assunto.

Mas hei, calma, o mundo dá voltas. Depois de duas semanas não é que liga o tal dono da casa dizendo que pensou melhor e queria fazer a troca conforme combinado anteriormente. Não preciso repetir quais eram minhas ponderações e prioridades e como o tal carro era, na minha cabeça, essencial para a minha vida continuar. Mas eu preciso repetir que a falta de maturidade e de entender o que deixar escapar o que realmente é imprescindível na vida é um erro que cobra caro, muito caro da gente; me fizeram tomar uma das piroes decisões da minha vida.

Sem titubear, sem pedir um momento para pensar, sem nem ao menos pensar duas vezes, a minha resposta foi perguntar para ele se ele me achava com cara de moleque (o que com certeza eu tinha) e mandar ele guardar a casa dele naquele lugar pois agora quem não queria o negócio era eu.

Ou seja, no final das contas fui eu quem se recusou a trocar um Gol bola, bem rodado, por uma casa.

Resultado de toda essa equação: o carro eu precisei me desfazer dele pouco tempo á frente por problemas financeiros, inclusive causados por ter que pagar um lugar para morar, pois nem eu nem minha família tinhamos casa própria. Se essa carro seguiu o curso normal da vida dele ele deve já estar em um ferro velho se deteriorando ou bem perto disso.

Já a casa, na data atual, faz parte de um bairro de classe média baixa que é considerado uma boa região para se viver em Goiânia, com bom comércio, escola, faculdade de renome por perto, bom transporte público, foram construídas boas vias de interligação do local com vias de acesso importantes da região em Goiânia.

Mas espera aí que o problema ainda foi bem pior que isto, para mim. Depois de não ter trocado um Gol bola bem rodado por uma casa, eu consegui voltar para São Paulo, como eu queria, mas comente para bater cabeça e amargar, dali para frente, cerca de cinco anos muito complicados que quase acabaram definitivamente com a minha vida. Foi tombo em cima de tombo, pancada em cida de pancada.

Se eu aprendi alguma coisa com aqueles anos de sofrimento: provavelmente sim, me ajudaram muito a tomar decisões acertadas (apesar de ainda hoje eu continuar a errar por tomar decisões apressadas em alguns casos). Hoje tenho a minha casa (financiada a perder de vista), crio meus filhos com o mínimo de dignidade possível. Não tenho uma vida que se pode dizer, fácil, mas também não posso reclamar, é um dos melhores momentos da minha vida, considerando toda a pobreza e dificuldade que vivi na minha infância e adolescência e no início da minha fase adulta.

Vou confessar para você que do momento em que eu recusei a troca do Gol bola pela casa, lá no início dos anos 2000, até o início deste mês de dezembro, eu nunca mais tinha pensado nessa história. Provavelmente pelo motivo de que na minha vida aconteceram tantas histórias bem mais impactantes que esse momento de grande burrice que tive, que provavelmente “apagaram” essa história da minha cabeça.

A história voltou no início deste mês e eu já a contei umas cinco vezes desde então, para pessoas que eu achei que poderiam extrair algum ensinamento dela e agora estou aqui, contando a história para você. Sim, eu acho que as decisões que termos que tomar para viver bem esta década tem muito a ver com a história que acabei de lhes descrever.

Há detalhes aí nessa história que talvez você não tenha enxergado de imediato, mas como eu disse, só guarde a história contigo e vá relembrando ela conforme as coisas forem se desenrolando nessa década de 20 que começa exatamente agora.

O que eu lhe desejo para esta década de 20 é que Deus abençoe enormemente a sua vida e abençoe o seu caminho. Que cada um receba com justiça de acordo com aquilo o que deseja e acredita.

Se cuide, reflita com paciência e sem paíxões e faça a coisa certa.

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